
† B A R T O L O M E U
PELA MISERICÓRDIA DE DEUS
ARCEBISPO DE CONSTANTINOPLA – NOVA ROMA
E PATRIARCA ECUMÊNICO.
GRAÇA, PAZ E MISERICÓRDIA
A TODA A PLENITUDE DA IGREJA
DO ARTÍFICE DE TODA A CRIAÇÃO
NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, DEUS E SALVADOR
* * *
Excelentíssimos e Reverendíssimos Irmãos Hierarcas, e abençoados filhos no Senhor,
Pela graça de Deus, doador de todo bem, entramos hoje no novo ano eclesiástico, honrando e celebrando, em seu início, com salmos, hinos e cânticos espirituais, o “Dia de Oração pela Proteção do Meio Ambiente Natural”.
A crise ecológica contemporânea, multidimensional, é uma crise da liberdade humana, da nossa religião e filosofia, do nosso ethos e da nossa cultura. O que vem primeiro é a “alteração nociva” da nossa liberdade — nossa ruptura e alienação da Fonte da Vida; o que se segue é uma conduta destrutiva do meio ambiente natural. Sentimos profunda gratidão pelo fato de que as iniciativas e intervenções pioneiras do Patriarcado Ecumênico, realizadas ininterruptamente desde 1989, não apenas tenham revelado os aspectos espirituais do problema ecológico, mas também tenham aberto novos caminhos e perspectivas para enfrentá-lo. Os simpósios ecológicos, os diálogos inter cristãos e inter-religiosos a eles relacionados, as recomendações específicas da Grande Igreja sobre questões ambientais, a ênfase colocada nas dimensões e consequências sociais da crise ecológica e outros esforços semelhantes constituem, em conjunto, uma sólida proposta ambiental, que enfatiza a necessidade imperativa de uma “Virada Copernicana” em nossa compreensão da ideia de progresso e na atitude da humanidade em relação à natureza, bem como nas ações daqueles que atuam na vida política, econômica e social, das Igrejas e religiões, da ciência e da tecnologia e dos responsáveis pela educação das novas gerações.
Continuaremos, em palavra e ação, a promover a visão ecológica da Santa Grande Igreja de Cristo e o dinamismo ecológico da relação eucarística, ascética e doxológica com a criação, sublinhando sempre que é necessário um cuidadoso trabalho teológico para a elucidação da autêntica mensagem ecológica da nossa fé e tradição ortodoxas, em benefício da criação, que é “muito boa”.
Estamos convencidos de que a valorização das dimensões religiosas e éticas da ameaça ecológica conduzirá à consciência da importância fundamental da “responsabilidade ecológica”. A humanidade deve finalmente deixar de agir como se não soubesse e abandonar definitivamente a ilusão de que o planeta Terra pode suportar perpetuamente os encargos e a destruição causados pela atividade humana, ou de que a natureza tenha o poder de se renovar por si mesma. O ethos da responsabilidade pela proteção do meio ambiente natural deve encontrar expressão nos níveis global, nacional, local e pessoal. Reiteramos, uma vez mais, que o cultivo da responsabilidade ecológica é um “imperativo categórico” para a humanidade, enquanto enfrenta a maior ameaça que já foi chamada a enfrentar ao longo de toda a sua história.
É abundantemente claro que, enquanto o modelo antropológico dominante for representado pelo “rico insensato” do Evangelho (Lucas 12,17–21), com sua declaração: “Derrubarei meus celeiros e construirei maiores; e ali armazenarei todas as minhas colheitas e os meus bens”, e suas palavras: “Alma, tens muitos bens acumulados para muitos anos; descansa, come, bebe e alegra-te”, a humanidade continuará a minar o seu futuro e a aniquilar a sua própria “casa”. Os “pecados da modernidade” criaram – e continuam a criar – novas divisões e rupturas entre a humanidade e a natureza. O “homem-deus” contemporâneo persiste na morte da natureza, desconsiderando toda medida e limite em nome de projetos geopolíticos e interesses econômicos, do consumismo e da satisfação de necessidades essencialmente insaciáveis, mas também, em um nível mais profundo, por causa de uma inversão da experiência vivida e dos valores interiores. As consequências do domínio global do desejo de manipular, instrumentalizar e explorar a natureza serão trágicas para a vida em nosso planeta.
A crescente aceitação e o estabelecimento oficial do dia 1º de setembro como o Dia de Proteção do Meio Ambiente Natural em todo o mundo cristão assumem hoje particular significado como símbolo e promoção prática da unidade dos cristãos. Além disso, a glorificação do “Artífice de toda a criação” no início da Indicção, em nossa tradição litúrgica, constitui uma preciosa herança, como convite e exortação ao respeito pela criação, que sofre as consequências de uma agressão humana indecorosa.
Mui Honoráveis Irmãos e caríssimos filhos,
O respeito pelos pilares fundamentais da civilização ecológica pode conter as tendências destrutivas do meio ambiente e abrir o “único caminho ecológico”, o do desenvolvimento sustentável. De modo mais amplo, a humanidade precisa chegar a um acordo sobre um conjunto de valores fundamentais comuns que, em um mundo marcado pelo conflito e pela polarização, sirvam de bússola para a caminhada rumo ao futuro.
Consideramos o princípio da solidariedade como o eixo central desse conjunto de valores: solidariedade como fonte de responsabilidade compartilhada, diálogo e reciprocidade sincera, juntamente com a responsabilidade coletiva pela proteção do meio ambiente natural. O respeito prático pela sacralidade da pessoa humana e o cuidado pela integridade da criação são, de uma perspectiva cristã, manifestações vitais da realização eucarística da Igreja e do chamado do ser humano a tornar-se o “sacerdote” da criação.
Neste espírito, enquanto rezamos para que o novo ano eclesiástico seja favorável e fecundo em boas obras e agradáveis a Deus, invocamos sobre todos vós, por intercessão e orações da Santíssima Theotokos Pammakaristos – cujo sacratíssimo ícone veneramos na Venerável Igreja Patriarcal e abraçamos “com a boca, o coração e a vontade” – a graça e a misericórdia de nosso Senhor e Deus e Salvador Jesus Cristo, cujo Santíssimo Nome seja bendito e glorificado, agora e sempre, e pelos séculos sem fim.
Amém!
1º de setembro de 2026
† Bartolomeu de Constantinopla
Vosso fervoroso suplicante diante de Deus






